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Renovação da CNH sem exames: por que ignorar o fator humano pode aumentar riscos no trânsito

19 de fevereiro de 2026
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O especialista reforça que não se trata de defender burocracia excessiva, mas de reconhecer limites humanos e agir de forma preventiva. Foto: Félix Carneiro / Governo do TocantinsO trânsito é, antes de tudo, uma atividade humana. Antes de qualquer tecnologia embarcada, de sistemas eletrônicos de assistência ou de normas que regulam a circulação, é o corpo humano que conduz, percebe, decide e reage. Braços, pernas, mãos, olhos, ouvidos e, sobretudo, o cérebro formam o principal recurso de segurança no trânsito. É a partir dessa constatação básica que o especialista em trânsito Celso Mariano faz um alerta contundente sobre os rumos que o Brasil vem adotando ao flexibilizar exigências na renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

Em vídeo divulgado pelo Portal do Trânsito, Celso Mariano chama atenção para uma contradição preocupante: enquanto se reconhece que veículos precisam de manutenção periódica para continuar seguros, o mesmo cuidado não tem sido aplicado ao principal “sistema” do trânsito — o ser humano.

Assista ao vídeo com a análise completa do especialista ao final desta matéria.

Corpo e veículo: uma conexão que exige precisão

Conforme Celso Mariano, dirigir é resultado de um encaixe quase perfeito entre o homem e a máquina. “Parece que tudo foi feito para se conectar ao veículo e fazer o trânsito funcionar bem. A percepção na hora certa, a reação correta, precisa, a manobra perfeita”, descreve.

No entanto, assim como acontece com qualquer máquina, o veículo sofre desgaste natural com o tempo e o uso. Sistemas perdem precisão, peças se desregulam, componentes envelhecem. Por isso, considera-se revisões periódicas indispensáveis para garantir segurança.

O problema, como aponta o especialista, é que esse mesmo raciocínio raramente aplica-se ao condutor.

O desgaste humano também existe — e é inevitável

“Não só o veículo precisa de manutenção. A nossa máquina — o corpo e o cérebro — também se desgasta”, alerta Celso Mariano.

Com o passar dos anos, capacidades físicas, cognitivas e emocionais podem se alterar de forma significativa, muitas vezes sem que a própria pessoa perceba.

Reflexos mais lentos, perda de acuidade visual, alterações neuromotoras, dificuldades de atenção e mudanças no equilíbrio emocional fazem parte do envelhecimento natural e também podem ser consequência de doenças, acidentes ou eventos marcantes da vida. “Nossos recursos físicos e mentais precisam de revisão. Se a cada dia entregamos condições diferentes ao ato de dirigir, imagine ao longo dos meses e dos anos”, observa.

O impacto da ampliação do prazo de validade da CNH

Um dos pontos mais criticados por Celso Mariano é a ampliação do prazo de validade da CNH, que passou de cinco para até dez anos para determinados condutores. A mudança, adotada com o argumento de simplificação e comodidade, gerou preocupação entre profissionais da área da saúde e da segurança viária. “Se em três ou cinco anos uma pessoa já pode perder boas condições para conduzir com segurança, imagine em dez anos”, questiona.

De acordo com o especialista, o problema não está apenas no tempo em si, mas no que não se avalia ao longo desse período. Capacidades neuromotoras, cognitivas e emocionais podem sofrer alterações profundas sem qualquer acompanhamento formal.

Renovação da CNH: uma oportunidade desperdiçada

Na avaliação de Celso Mariano, o momento da renovação da CNH sempre representou uma “oportunidade de ouro” para verificar se o condutor ainda reúne condições mínimas para dirigir com segurança. Exames médicos e psicológicos não existem para punir, mas para proteger a coletividade. “O Brasil, inexplicavelmente, está abrindo mão dessa oportunidade”, critica.

Segundo ele, a lógica das simplificações recentes parece estar mais voltada a agradar o público do que a preservar vidas.

“Quando a ansiedade em agradar passa na frente do bom senso, adicionando riscos ao trânsito, o que temos é um quadro de irresponsabilidade”, afirma.

Bom comportamento não substitui aptidão física e mental

Outro ponto duramente questionado pelo especialista é a ideia de renovação automática da CNH baseada exclusivamente no bom comportamento no trânsito, como a ausência de infrações. “Isso é uma distorção que afronta a lógica e o bom senso”, avalia.

Conforme Celso Mariano, não há relação direta entre não cometer infrações e manter plena capacidade física e mental para dirigir.

“Mesmo bons condutores perdem habilidades naturalmente. Isso faz parte da condição humana”, explica. Ele usa um exemplo simples e direto: “Eu, por exemplo, já não consigo mais dirigir sem óculos”.

O alerta é claro: bons antecedentes no trânsito não garantem visão adequada, reflexos preservados ou plena capacidade cognitiva.

Um risco adicional em um trânsito já violento

Ao desconsiderar avaliações periódicas de saúde, o país corre o risco de inserir um fator adicional de perigo em um cenário já marcado por altos índices de violência no trânsito. “Desconsiderar essas avaliações é levar para o trânsito um risco adicional injustificável”, afirma Celso Mariano.

O especialista reforça que não se trata de defender burocracia excessiva, mas de reconhecer limites humanos e agir de forma preventiva. Ignorar o desgaste natural do corpo e da mente é, segundo ele, fechar os olhos para um problema real e previsível.

Um debate que precisa avançar

Ao final de sua reflexão, Celso Mariano lança uma pergunta que resume o cerne da discussão: “Aonde exatamente queremos chegar com essas simplificações?”

O questionamento vai além da renovação da CNH e toca em um ponto central das políticas públicas de trânsito no Brasil: até que ponto facilitar processos pode comprometer a segurança coletiva?

No vídeo, o especialista aprofunda essa reflexão e convida motoristas, gestores e a sociedade a repensarem o papel das avaliações na preservação da vida no trânsito.

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