Desde janeiro de 2026, essas condições podem ser configuradas, por lei, como deficiência
“Sinto dores no corpo todo de forma variada, umas mais intensas, outras mais leves , mas sempre desconfortáveis , o que faz com que a gente acabe aprendendo a lidar com elas e com os nossos pensamentos , porque é muito importante não se abalar emocionalmente ” . O relato é da aposentada Angelina da Silva , de 62 anos, que convive com a fibromialgia há 15 anos e realiza tratamento no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE) , uma das unidade s vinculada s à estatal HU Brasil . No hospital, ela recebe acompanhamento multidisciplinar e cuidado contínuo via Sistema Único de Saúde (SUS) .
Moradora de Orobó (a cerca de 110 km do Recife) , Angelina é uma das quase 6,5 milhões de pessoas no Brasil que convive m com a fibromialgia . É muita gente . S egundo dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia, s ão 3% da população ou 8 1 estádios do Maracanã lotados. Para dar visibilidade a essas pessoas e às que sofrem com a Síndrome da Fadiga Crônica , o 12 de maio passou a ser reconhecido como o Dia Mundial e Nacional de Conscientização dessas condições.
Quando o corpo grita em silêncio
A fibromialgia tem como sintomas dor es musculoesquelética s generalizada s , frequentemente acompanhada s de fadiga, distúrbios do sono, ansiedade, déficits cognitivos (como alterações de memória e atenção), sintomas depressivos e sensibilidade aumentada ao toque. A causa exata é desconhecida, mas estudos indicam que ela é multifatorial, envolvendo disfunções no sistema nervoso central que aumentam a sensibilidade à dor.
A maioria dos pacientes é do sexo feminino, possivelmente, em virtude da maior sobrecarga física e emocional , além de as mulheres possuírem diferenças no processamento da dor pelo sistema nervoso .
Já a síndrome da fadiga crônica – também conhecida como Encefalomielite Miálgica (EM) – tem como principal sintoma o cansaço intenso e persistente, que não melhora com repouso e pode piorar após atividades físicas ou mentais ; além de dores, tonturas e problemas de memória. E studos internacionais costumam apontar prevalência entre 0,2% e 0,4% da população.
“ O diagnóstico diferencial ( com uma consulta médica bem realizada e exames laboratoriais) é fundamental para afastar outras possibilidades de doenças e iniciar o tratamento de controle o mais rápido possível tanto para a fibromialgia quanto para a fadiga crônica ”, explica a reumatologista e coordenadora do A mbulatório de F ibromialgia do HC -UFPE, Aline Ranzolin .
Ranzolin destaca uma estratégia para controle dos sintomas . “ A primeir a ação é a tuar na educação do paciente ajudando no entendimento a res peito da doença e dos seus sintomas , a juda ndo a encontrar um modo de como lidar com ela e melhorar a qualidade de vida ( praticando algum hobby e outras ações que proporcionem bem-estar ). E xercício s físic os também são fundamentais , assim como o acompanhamento psicológico, com a terapia cognitiva comportamental . M edicações também são prescritas ”, come n ta a reumatologista.
Agora é lei
A fibromialgia , a f adiga c r ô nica e outras síndromes dolorosas correlatas passaram a ser oficialmente reconhecidas como condições que podem caracterizar deficiência nos termos da Lei nº 15.176 / 2025 , em vigor desde janeiro passado . A avaliação para atestar a deficiência é biopsicossocial e feita por equipe multiprofissional ( composta por médico, fisioterapeuta, profissional de educação física, psicólogo, nutricionista e assistente social) . “ É o grau de incapacidade funcional e suas consequências na vida do paciente que determinar á esse reconhecimento ”, destac a o fisioterapeuta do Hospital Universitário da Universidade Federal de Roraima (HU-UFRR), Gabriel Parisotto.
O profissional pontua alguns critérios que são analisado s n ess a avaliação biopsicossocial . “É preciso haver : uma l imitação funcional nas atividades diárias ( como trabalho, autocuidado e mobilidade) ; p ersistência d e sintomas , como dor crônica, fadiga e alterações cognitivas que não melhoram significativamente com o tratamento ; e r estrição de participação em sociedade , com prejuízo s na vida profissional, socia l ou educacional , por exemplo”, ressalta Parisotto.
A importância da atividade física
A fisioterap i a e as atividades físicas supervisionadas t ê m como foco a manutenção da funcionalidade e a qualidade de vida do paciente , evitando picos de dor e fadiga. “ A fisioterapia age com e xercícios graduais que evita m a sobrecarga ; na promoção d a e ducação do paciente ensina ndo-o a reconhecer limites, organizar atividades diárias e respeitar períodos de descanso ; na adoção de t erapias manuais suaves ; em e xercícios aeróbicos leves ; em t écnicas de relaxamento e respiração para reduz ir o estresse , que pode desencadear crises ; além de um p lanejamento para crises com redu ção de intensidade dos exercícios, foc o em mobilidade leve e analgesia ” , afirma Gabriel Parisotto .
Uma rotina de exercícios físicos regulares também proporciona efeito s benéfico s ao paciente . “Estudos recentes demonstram resultados positivos como o controle da dor crônica e a redução na catastrofização da doença, bem-estar e qualidade de vida, liberação de m i ocinas ( proteínas com ação anti-inflamatóri a s) e melhora s da capacidade funcional, d a qualidade do sono e da rigidez”, afirma a profissional de Educação Física do Hospital Universitário d e Brasília (HUB-UnB) Lidiane Gomes , que ressalta a importância da supervisão das atividades e o respeito à individualidade do paciente .
Estigma também causa dor
Por não apresentarem sinais visíveis em exames , muitas pessoas com fibromialgia e fadiga crônica têm seus sintomas minimizados até por pessoas mais próximas . A conscientização é, portanto, essencial para promover empatia e cuidado .
“Já ouvi inúmeras queixas das mulheres (maioria d o s pacientes com essas condições) por serem desacreditadas nas suas dores tanto físicas quanto emocionais. Is s o contribui para sentimentos de inutilidade e solidão, além dos sintomas de ansiedade e depressão comumente associados a es s es quadros ”, explica a psicóloga do Hospital Universitário Antônio Pedro, da Universidade Federal Fluminense ( Huap -UFF), Nataly Netchaeva . Segundo a especialista, surge, a ssim, um ciclo vicioso: quanto mais são impactadas emo cionalmente, mais aumentam as dores e a fadiga .
A psicóloga reforça ainda que a experiência que cada um tem com o seu processo de adoecimento é subjetiva e dinâmica, “ dependendo não apenas de características individuais, mas também socioculturais, relacionadas à rede de apoio ” .
Sobre a HU Brasil
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a HU Brasil foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Reportagem: Moisés de Holanda , com edição de Danielle Campos
Coordenadoria de Comunicação Social da Rede HU Brasil