A ideia de que para socializar é necessário consumir bebidas alcoólicas está perdendo espaço para um novo padrão de consumo: o das bebidas com zero teor alcoólico. Aos poucos, esse mercado deixa o status de nicho e se consolida como uma alternativa real entre aqueles que apreciam um bom drink, mas querem deixar o álcool de lado. Além da alta das cervejas zero, os destilados sem álcool também ganham espaço nos supermercados e na coquetelaria dos bares e eventos noturnos. O Paraná abriga uma das pioneiras desse movimento no país: a Miden, empresa curitibana e a primeira destilaria zero álcool do Brasil. A Miden foi criada em 2023, depois que os sócios Hyan Assano, Gilmar Luiz Tomasson e José Henrique Tomasson viajaram para Nova York para acompanhar o Bar Convent Brooklyn (BCB), um dos maiores eventos globais da indústria de bebidas e destilados. A meta inicial era buscar novidades tradicionais, como licores de café, já que eles também são os fundadores da destilaria Bacco. No entanto, o que encontraram mudou os planos do trio. “Chegando lá, mesas redondas, palestras e apresentações só falavam sobre uma coisa: destilados zero álcool. Marcas consolidadas na Europa e nos Estados Unidos já eram gigantescas”, relembra Assano. “Percebemos que a tendência estava ditando o ritmo do mercado internacional e decidimos acelerar o movimento no Brasil, criando a primeira destilaria focada em zero do país.” Sócios Gilmar Luiz Tomasson, Hyan Assano e José Henrique Tomasson. Foto: Matheus de La PalmA aposta era ousada para o mercado nacional de três anos atrás. “No início, éramos vistos quase como uma aberração. Mas hoje a mudança no hábito de consumo está estampada nos jornais diários: o volume global de consumo de álcool vem caindo ano a ano e as pessoas buscam alternativas”, pontua o empresário. Geração Z? Quem é o verdadeiro consumidor? Embora o senso comum aponte que a redução no consumo de álcool seja puxada predominantemente pelos mais jovens pertencentes à Geração Z, o empresário afirma que a realidade comercial da Miden não é bem essa. De acordo com ele, por se tratar de um produto premium de alta complexidade técnica e comercializado na faixa de R$ 79,90, o público comprador não é o jovem. “A resposta sobre quem consome vale milhões de reais e nós aprendemos apanhando no mercado”, revela Assano. “O nosso principal público comprador é a mulher madura, em uma faixa etária que vai dos 35 aos 55 anos. Hoje, entre 70% e 80% das nossas vendas online são do público feminino.” Segundo ele, esse perfil engloba a consumidora que está focada na carreira, na academia e que quer manter a concentração durante a semana, mas sem abrir mão do ritual social. Assano também pontua que o público-alvo se estende para gestantes ou mulheres em período de amamentação, além de pessoas com restrições médicas momentâneas ou contínuas, como o uso de canetas emagrecedoras. O termômetro do balcão Quem avalia o fenômeno de perto são os bartenders. Richard Orciuch, mixologista do Officina Restô Bar — casa curitibana premiada pela melhor carta de drinques no Prêmio Bom Gourmet 2025 —, confirma a transformação acelerada no comportamento local. “Antigamente, os coquetéis sem álcool eram muito doces, parecidos com suco. A virada de chave ocorreu no ano passado, após o susto do mercado com casos de contaminação por metanol em bebidas alcoólicas“, explica Orciuch. “Tivemos um salto de 50% na venda de não alcoólicos na crise, e o consumo se manteve alto.” Drink do Officina – Strawberry Sour: whisky zero, morango e limão. Foto: Nakayana Drink do Officina – Aniram: soda de maracujá, manjericão e baunilha. Foto: NakayanaAtualmente, o menu do bar reflete quase uma paridade: são sete coquetéis sem álcool e nove opções alcoólicas. O público é composto majoritariamente por mulheres na faixa dos 30 anos, o que direciona a carta para opções frutadas e cítricas equilibradas. O bartender destaca o hábito de intercalar bebidas durante a noite. “É super comum o cliente pedir dois drinques com álcool e terminar com um sem álcool, ou ir revezando para não passar do ponto, mas continuar socializando”, diz. O consumo de não alcoólicos predomina de segunda a quinta-feira. Estética similar dos drinks Outro fator que impulsiona a coquetelaria zero é a estética idêntica às versões alcoólicas. Os drinques utilizam os mesmos copos, taças e gelo cristalino. “Se a mesa inteira brinda com taças elegantes, quem não bebe álcool também vai estar com uma na mão. Não é apenas servir uma soda italiana”, defende Orciuch. A chegada de insumos nacionais viabilizou receitas mais complexas. O bar utiliza as três versões da Miden: London Zero (tipo gim), American Zero (tipo bourbon) e Italian (tipo aperitivo). Alternative Italian Zero. Foto: Matheus de La Palm Alternative London Zero. Foto: Matheus de La Palm Alternative American Zero. Foto: Matheus de La Palm“O gim zero é o mais parecido com o original. O uísque é o mais difícil de imitar devido à falta do calor do álcool, mas combina perfeitamente no coquetel. As opções com o bourbon alternativo estão entre as mais pedidas”, revela o bartender. “Isso prova que o álcool é apenas mais um ingrediente. Quando o cliente percebe, o preconceito cai.” Por trás do sabor, há um complexo trabalho de engenharia de produção. No processo convencional, o álcool extrai os óleos essenciais dos botânicos e atua como conservante natural. Na Miden, a fabricação utiliza hidrodestilação. “Fazemos um chá concentrado de botânicos em alta temperatura. Para reter apenas o sabor e o aroma puro sem a coloração das plantas, fervemos o composto e destilamos o vapor da água com os óleos essenciais”, explica Assano. O maior desafio é a conservação, já que a água é suscetível a contaminações. “No início, em 2023, perdemos lotes porque o líquido estragava na garrafa. Hoje, o processo exige ambiente estéril e operadores paramentados. O cuidado técnico é muito mais lento”, diz o empresário. O tempo de desenvolvimento reflete a dificuldade: o aperitivo italiano exigiu seis meses de testes; a versão de uísque levou 10 meses; e o gim demandou quase dois anos de laboratório. Drink do Officina – Bubble Berries: espumante zero e frutas vermelhas. Foto: Nakayana Drink do Officina – Zero penicilin: whisky zero, limão, mel, gengibre e chá lapsang. Foto: NakayanaO entrave burocrático A legislação brasileira ainda não regulamentou a categoria. Não existe classificação jurídica específica para “destilados zero” no país. Por lei, a palavra “gim” é restrita a bebidas alcoólicas. A Miden contorna a regra utilizando termos como Alternative London Zero ou Alternative American. “O Brasil está engatinhando, mas vai seguir o caminho da Europa e dos Estados Unidos. Em poucos anos, o consumidor encontrará gôndolas inteiras dedicadas a destilados zero álcool nos supermercados paranaenses”, prevê Assano. Entrevista “Nunca imaginei viver mais de 30 anos”, Renato Freitas relembra infância e comenta vida política Tribuna Entrevista “Eu não costumo tirar segundo lugar”, diz Rafael Greca, pré-candidato ao governo do Paraná Cafeicultura Paraná mira em cafés especiais para recuperar relevância após Geada Negra Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região! Seguir no Google