A mulher presa em Santa Catarina, que fingiu ter 12 anos e enganou uma família por mais de um ano, foi acolhida por uma instituição para menores em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), em 2020. Na época, ela também afirmava ter 12 anos e contava as mesmas histórias tristes para não ser descoberta. A farsa durou nove dias até que Amanda Maria Souza de Oliveira foi descoberta e fugiu. Com nome falso de Júlia, ela primeiro procurou uma igreja evangélica da cidade, que chamou o Conselho Tutelar, enganando a todos sobre sua idade. Ela foi então encaminhada para um abrigo, onde ficou acolhida, em novembro de 2020. O corpo adulto era justificado pelo uso de hormônios na infância, além de constantes abusos do pai. “Disse que veio fugida de Fortaleza, onde sofria abusos em rituais de magia negra e que morava num cartel, no qual mataram a mãe dela e outras crianças”, conta Andréia Ramos, presidente da Casa de Acolhimento Anjo da Guarda. “No terceiro dia, percebemos que tinha algo muito estranho nela e começamos a monitorar dia e noite. Ela ficou conosco sete dias. Nesse tempo, percebeu que não estávamos comprando a história dela. Falava em nome de políticos muito poderosos, em perseguição, tentando intimidar a equipe para não procurar documentos dela em Fortaleza.” Mulher de 38 anos se passava por criança e pode ter aplicado golpes no Paraná. Andreia diz que uma consulta para “Júlia” foi marcada e ela ficou dois dias internada na ala pediátrica de um hospital da região para retirada de agulhas. Depois disso, Amanda teria fugido. “Fizeram raio x e apareceram agulhas no corpo. A médica desconfiou e entrou em contato com o Hospital Pequeno Príncipe, que informou que ela já tinha passado por lá anteriormente e era fugitiva.” O Hospital Pequeno Príncipe confirma ter recebido uma paciente, no início de novembro do mesmo ano, para atendimento solicitado pelos órgãos de proteção de Curitiba. “Diante da ausência de documentação oficial que permitisse a confirmação de informações cadastrais e pessoais, os órgãos competentes foram acionados para os encaminhamentos cabíveis”, informou o hospital infantil, em nota, sem comentar detalhes do atendimento. A prefeitura de Curitiba, no entanto, diz não ter encontrado registros do caso. Vulnerabilidade e afeto como alvo Em março de 2021, pouco tempo depois de passar por Campina Grande do Sul, a mulher conseguiu aplicar novos golpes, desta vez em Colombo, também na RMC. Tudo aconteceu em um momento de fragilidade da professora Tatiane Silva, que tinha acabado de perder a cunhada, grávida, para Covid-19. Em um grupo de orações católicas, ela procurou apoio. Foi lá que Amanda apareceu, via whatsapp, dizendo se chamar Emily e ser uma criança com câncer de medula óssea, com os dias contados. O caso comoveu a todos, e pegou a professora pelo coração. Ela foi atrás da mãe da menina – que na verdade era a própria golpista – e começou uma relação que tomou proporções inesperadas. A professora a reconheceu por fotos, expostas na mídia após a prisão, pela voz e forma infantilizada de falar, pelas histórias e nomes semelhantes, e por áudios enviados a outra vítima, do Rio de Janeiro.“A história era muito bem articulada, um belo roteiro. Ela criava os personagens todos, falava por eles, tinha uma personalidade para cada um”, lembra Tatiane. Ela reconhece que, pela perda familiar e a pandemia, estava abalada emocionalmente, muito frágil para enxergar a verdade. O apego foi tão grande que ela aceitou o convite para ser madrinha da suposta adolescente, fazendo homenagens, cartazes, camisetas, videochamadas em dias especiais. “Fiz até uma tatuagem no pulso com o nome dela.” Tatuagem, hoje coberta, feita pela professora quando aceitou ser madrinha da golpista. Foto: Arquivo pessoal. A professora diz se sentir envergonhada por ter caído no golpe, que a levou a escrever uma carta para então primeira-dama, Michele Bolsonaro, pedindo ajuda – que nunca veio. A capacidade de manipulação da golpista, reforçando sempre o câncer em estágio avançado, era profissional. “No dia que ela mentiu que o pai doou medula e deu certo, andamos 15 quilômetros até o Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro para agradecer.” Tatiane só descobriu a verdade com a ajuda do grupo, que desconfiou após “Emily” pedir dinheiro. O golpe foi denunciado à Delegacia de Colombo, que ainda investiga o caso. “Ela precisa ficar na cadeia, pois consegue enganar qualquer um”, conclui a professora. A Polícia Civil do Paraná confirmou, em nota, que em 2022 abriu um inquérito para investigar o caso, porém, não foi possível chegar à autora do crime. “Com o surgimento de novas informações a partir da prisão em Santa Catarina, a PCPR intimará as vítimas de Colombo para que façam o procedimento de reconhecimento da suspeita.” Presa em Santa Catarina Presa em flagrante no início de junho em Santa Catarina, Amanda foi denunciada pelo Ministério Público daquele Estado por estelionato e falsa identidade. Ela está no presídio de Joinville, onde deve passar por uma perícia para atestar sua sanidade mental. Na cidade, ela enganou uma família por 14 meses, entre 2025 e 2026, período em que foi acolhida como filha adolescente, ganhando quarto, festa de aniversário de 13 anos e até remédio de alto custo para emagrecer. Ela falava como criança, tomava mamadeira e simulava crises emocionais. Segundo o inquérito da Polícia Civil de Santa Catarina, Amanda teria adotado condutas similares em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e, em Santa Catarina, Florianópolis e Chapecó, onde responde a uma ação penal pelos mesmos crimes. O MPSC diz que, caso seja constatado que Amanda não tinha plena capacidade de entendimento ou autodeterminação na época dos fatos, o resultado poderá influenciar diretamente os rumos da ação penal, incluindo aplicação de medida de segurança em vez de prisão. “Enquanto aguarda o exame e o laudo, o processo ficará suspenso.” Rafael Siewert, advogado de defesa de Amanda, diz aguardar a conclusão da perícia e o laudo para adoção de medidas processuais cabíveis. A avaliação psiquiátrica deve acontecer até o fim de junho. Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região! Seguir no Google