“É noite de São João, vai amanhecer o dia…”
O verso eternizado por Luiz Gonzaga atravessa gerações e ganha ainda mais força na noite de 24 de junho. Enquanto o forró toma conta dos arraiais, as fogueiras iluminam as ruas e as bandeirinhas colorem o céu, outro símbolo anuncia a chegada do dia mais esperado do calendário junino: o estampido dos bacamartes.
Celebrado junto com o Dia de São João, o Dia do Bacamarteiro homenageia homens e mulheres que mantêm viva uma tradição secular do Nordeste. Em Caruaru (PE), uma dessas guardiãs é Ângela Maria de Oliveira Souza, agricultora aposentada, costureira e chefe do Batalhão 27, na zona rural do município.
Há 35 anos ela participa dos festejos juninos. A paixão nasceu ainda na infância, inspirada pelo pai, seu Zacarias, que apresentou aos filhos a cultura do bacamarte e os ensinamentos que ela leva para a vida até hoje.
“Meu pai era bacamarteiro. Aprendi a carregar o bacamarte ainda muito nova. Toda vez que pego nele, a primeira lembrança que vem é da minha infância e dos momentos que vivi ao lado dele”, conta.
Ao longo dos anos, Dona Ângela conquistou respeito em um espaço tradicionalmente ocupado por homens. Hoje lidera um batalhão com mais de 30 integrantes e se orgulha de ver cada vez mais mulheres ocupando espaço na cultura popular.
“Eu nunca me vi como exceção. Sempre acreditei que a mulher pode estar onde quiser. Fico feliz quando encontro outras mulheres nos batalhões porque isso mostra que estamos conquistando nosso espaço.”
A aposentadoria rural chegou depois de mais de três décadas dedicadas ao trabalho no campo. Como segurada da Previdência Social, ela conquistou o benefício ao cumprir os requisitos previstos para os trabalhadores rurais. Desde então, a renda mensal trouxe mais tranquilidade para enfrentar as despesas do dia a dia e continuar participando ativamente da tradição que tanto ama.
“Não é fácil viver da agricultura, principalmente quando a idade vai chegando. A aposentadoria trouxe uma segurança maior. Hoje a gente consegue comprar um remédio quando precisa, ajudar na alimentação e viver com mais tranquilidade.”
Para ela, o benefício representa mais do que uma renda mensal. “A aposentadoria é o caminho para um descanso melhor. A gente trabalhou a vida toda e, quando ela chega, fica mais tranquilo para cuidar da saúde, comprar um remédio e seguir a vida.”
A renda também ajuda na manutenção das atividades do batalhão. Como chefe do grupo, Dona Ângela participa da organização das apresentações e das despesas necessárias para manter viva uma tradição que atravessa gerações. “Tenho responsabilidades e despesas. A aposentadoria ajuda porque todo mês aquele dinheiro está ali. Dá mais tranquilidade para continuar cuidando do grupo e preservando essa cultura.”
Para ela, o bacamarte representa muito mais do que o disparo que marca os festejos juninos. “Existe uma história, uma tradição, uma cultura e uma religiosidade. Antes das apresentações, a gente reza, canta os benditos e homenageia o santo do dia. É algo que vai muito além do tiro.”
O batalhão que ela comanda tem mais de um século de existência e carrega costumes transmitidos entre famílias há décadas. Por isso, uma de suas maiores preocupações é garantir que esse conhecimento continue vivo. “Eu faço questão de ensinar tudo o que aprendi. Um dia não vou estar aqui, mas quero que alguém continue contando essa história e mantendo essa tradição.”
Quando segura o bacamarte, Dona Ângela diz que as lembranças da infância voltam imediatamente. “É emoção, é amor, é saudade das pessoas que passaram pela minha vida. Eu me transformo quando estou com meu batalhão.”
Ao resumir a própria trajetória, ela encontra duas palavras que traduzem o sentimento de quem dedica mais de três décadas à cultura popular nordestina: “Amor e paixão. É isso que o bacamarte representa para mim.”
Texto: Denise Martins (ACS/SRNE) Foto: Acervo pessoal Ângela Maria