A cidade de Joinville, maior economia de Santa Catarina segundo o IBGE, abriu 6.617 vagas formais no primeiro trimestre de 2026, o maior saldo entre admissões e demissões de todo o estado no período, como aponta o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. O número, que em outro contexto seria sinal de mercado aquecido e saudável, virou o retrato de um problema: a cidade cria postos de trabalho em um ritmo que a própria mão de obra disponível não consegue acompanhar. Esse descompasso fica mais nítido quando se olha para a taxa de desemprego. Santa Catarina fechou o primeiro trimestre deste ano com a menor desocupação do país, em torno de 2,7%, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE. É o tipo de número que, para a indústria, não significa alívio, significa que não há de onde tirar mais trabalhadores, aponta o economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), Pablo Bittencourt. “As 6,6 mil vagas abertas por Joinville no primeiro trimestre não são um indicador de mercado folgado, mas sim um sinal claro de que o ritmo de geração de empregos na cidade está acima da capacidade real de reposição de mão de obra disponível”, afirmou. A dimensão do problema aparece quando se compara a taxa catarinense com o piso técnico da economia brasileira. A Fiesc não trabalha com um número fixo de pleno emprego para o estado, mas usa como referência a taxa natural de desemprego do Brasil — a chamada Nairu (non-accelerating inflation rate of unemployment, ou taxa de desemprego não aceleradora da inflação) —, estimada em torno de 8%. Com desocupação de 2,7%, Santa Catarina opera mais de cinco pontos percentuais abaixo desse piso estrutural. Na prática, explicou Bittencourt, isso coloca o estado no patamar de mercados de trabalho de economias avançadas, como Japão, Singapura, Suíça e Coreia do Sul, mas sem a mesma capacidade de ajuste. “Uma taxa de 2,7% não é sinal de um mercado saudável, mas sim de escassez de mão de obra e capacidade ociosa mínima”, avaliou. Abaixo da taxa natural, segundo ele, a expansão da indústria trava: fica difícil contratar, reter e qualificar trabalhadores, mesmo em ciclos favoráveis de demanda. Esse teto invisível ajuda a entender por que as empresas de Joinville pararam de esperar o trabalhador aparecer e passaram a ir buscá-lo fora do estado. Empresas cruzam o país atrás de trabalhadores A Tupy, uma das maiores indústrias da cidade e líder global no setor de metalurgia, realizou em maio um processo seletivo em Belém, no Pará, para preencher vagas em Joinville, com salários de até R$ 3,3 mil e um pacote de relocação que inclui ajuda de custo para deslocamento, moradia paga no primeiro mês e auxílio-aluguel nos meses seguintes. Não é um caso isolado. A Britânia abriu 150 vagas de operador sem exigência de experiência, com transporte fretado e plano de saúde, e a ArcelorMittal Tuper, em São Bento do Sul, anunciou mais de 100 postos com salário acima da média regional para funções operacionais. Do lado empresarial, o recrutamento à distância deixou de ser improviso para virar política estruturada. A Fiesc lançou o programa “Porta aberta”, em parceria com a Agência da ONU para as Migrações (OIM) focado em preparar indústrias e poder público a receber esses trabalhadores. “Nossa economia diversificada e a excelente qualidade de vida da região tornam o município um polo natural de atração de talentos“, afirmou Bittencourt. Pelo programa, o Sesi oferece apoio psicossocial e o Senai cuida da qualificação, com o objetivo de integrar os novos moradores e suas famílias. Mas há um paradoxo no centro da história: enquanto empresas voam até o Norte do país atrás de gente, Joinville tem milhares de vagas abertas dentro da própria cidade. Duas mil vagas em aberto e um descompasso de perfil O Centro Público de Atendimento aos Trabalhadores (Cepat), unidade da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Inovação da prefeitura de Joinville, registrou entre 2 mil e 2,3 mil vagas abertas nas últimas semanas. A maioria se concentra na indústria e nos serviços — em uma única semana de junho, esses dois setores somavam 1.804 postos, ante 281 na construção civil e 222 no comércio. O volume alto e constante não se traduz em preenchimento rápido, e a explicação não é falta de gente à procura de emprego. Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação, William Escher, o público do Cepat é majoritariamente formado por moradores de Joinville, mas com uma ressalva. “Grande parte dessa população residente não é natural do município. Registramos uma parcela considerável de migrantes oriundos de outros estados e de outras cidades de Santa Catarina, além de um fluxo expressivo de imigrantes de outros países, com destaque para a população venezuelana”, afirmou. Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região! Seguir no Google