A consolidação de uma nova planta industrial em Fazenda Rio Grande coloca o Paraná em uma posição estratégica no mapa da chamada mineração urbana. Com um investimento superior a R$ 50 milhões, a unidade da Metal Carbon Hub/Reminera ocupa uma área de 18 mil metros quadrados voltada a resolver um dos maiores gargalos ambientais e industriais da atualidade: o descarte de eletrodomésticos, eletrônicos e componentes automotivos pós-consumo. Diferente da reciclagem tradicional, a planta opera sob o conceito de aterro zero e tem capacidade para extrair e recuperar metais nobres e elementos conhecidos como terras raras — minerais escassos essenciais para a fabricação de chips, smartphones e motores elétricos. Ao reinserir esses componentes na cadeia produtiva, o hub reduz a dependência do mercado externo e oferece uma alternativa para indústrias que precisam cumprir as metas da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). O potencial desse mercado se baseia na transição para uma economia menos dependente de recursos naturais virgens. “A mineração urbana complementa a mineração tradicional. Em vez de extrair novos recursos da natureza, recuperamos materiais valiosos que já estão presentes em eletroeletrônicos e equipamentos descartados”, explica Gabriel Tadeu, CEO da companhia. “Isso ajuda a reduzir a dependência de importações, fortalece a economia circular e cria uma fonte nacional de matérias-primas estratégicas para a indústria. É um mercado com enorme potencial de crescimento no Brasil.” A rastreabilidade tem sido o principal argumento para atrair as grandes marcas brasileiras, por meio de um Sistema de Rastreamento Ambiental (SRA) que monitora o resíduo do início ao fim. De acordo com o executivo, a demanda do setor privado equilibra o aspecto regulatório e o financeiro. “Hoje as empresas buscam duas coisas. Elas precisam cumprir a legislação ambiental, mais também querem segurança e transparência. O SRA permite rastrear todo o processo, da origem até a destinação final, oferecendo evidências concretas de conformidade e fortalecendo as práticas de ESG. Além disso, a recuperação dos materiais gera valor econômico para toda a cadeia”, pontua Tadeu. Os planos futuros do grupo incluem a verticalização da produção com a construção de uma estrutura de fundição própria no estado, um passo planejado para agregar ainda mais valor aos materiais recuperados. “Nossa prioridade agora é consolidar a operação da Reminera e ampliar o volume processado”, sinaliza o CEO. “A fundição própria faz parte do nosso plano de verticalização e será o próximo grande passo. Ainda estamos definindo o cronograma e o investimento, mas ela permitirá agregar ainda mais valor aos materiais recuperados e fortalecer a cadeia nacional de reciclagem.” A engrenagem social: a triagem na ponta Para abastecer uma estrutura que projeta o processamento de até 5 mil toneladas de materiais por mês, o elo com quem coleta o resíduo na ponta da cadeia tornou-se fundamental. A empresa desenhou um modelo de negócios que atua de forma complementar ao trabalho das cooperativas de catadores locais, absorvendo materiais que antes não encontravam vazão comercial justa no mercado. Junior Farias de França, atual diretor da unidade de Fazenda Rio Grande, conhece bem essa realidade. Antes de assumir a gestão na fábrica, ele trabalhava diretamente em uma cooperativa de catadores em Sorocaba (SP). Ele explica que a parceria resolve um problema histórico de subvalorização de sucatas complexas. “Na Reminera/Metal Carbon Hub o que eles fazem é pagar um valor maior na sucata do que eles costumam receber na venda em ferros velhos e sucateiros”, relata França. “Materiais mais complexos, como eletrônicos e eletroeletrônicos, costumam ser difíceis de comercializar. Existem muitas empresas especializadas que querem comprar o eletrônico, mas querem comprar o eletrônico para tirar placa e outros dispositivos, mas não são todos que possuem valor comercial. Então na Metal Carbon Hub, eles acabam encontrando esse parceiro para todos os tipos de eletroeletrônicos.” Essa integração entre a coleta manual e o processamento industrial de grande porte também reconfigura o debate sobre a substituição da mão de obra humana pela tecnologia. Para o diretor, o maquinário depende essencialmente do critério humano para funcionar com eficiência. “Esse receio muitas vezes existe, mas aqui não acreditamos nisso, porque existe a criatividade e a humanidade do processo que a inteligência artificial nunca poderá substituir. Nós trabalhamos para que a Reminera seja um braço das cooperativas de toda região e não um concorrente”, afirma. Alta potência e precisão operacional Depois de coletados e triados, os materiais chegam à etapa final do fluxo da planta. É ali que opera o shredder, um supertriturador inédito no Paraná, capaz de desintegrar estruturas complexas — incluindo veículos inteiros — em apenas 20 segundos. A operação de uma máquina desse porte exige um protocolo rígido de segurança e conformidade técnica, balizado por certificações internacionais (ISO 9000, 14000 e 45000) obtidas pela planta. O gerenciamento dessa rotina fica a cargo de Michael Souza, gerente operacional da unidade, que destaca a importância da triagem prévia antes do acionamento dos motores. “Passamos por treinamentos intensos para iniciar o trabalho aqui na Reminera, todas as funções têm seus processos bem estabelecidos pela Metal Carbon Hub”, explica Souza. O rigor técnico serve para mitigar riscos severos durante a pulverização rápida dos resíduos. “Por exemplo, no shredder não pode ir elementos herméticos, outros tipos de ferro como fundido ou miúdo, o carro não pode ir com um tanque de gasolina cheio ou resto de combustível, por risco de explosões. Tudo tem processo bem definido, mas o maior desafio é justamente a classificação do material, então a triagem é um processo muito importante, porque o maior desafio é a classificação dos materiais. Para garantir que toneladas de detritos deixem de ocupar espaço em aterros sanitários e retornem ao ciclo industrial de forma segura, a rotina envolve uma malha constante de capacitações e normas regulamentadoras. “Todos os colaboradores passam por treinamentos que permitem a execução do trabalho, da separação correta e nossa segurança. Temos a SIPA, brigada de incêndio, treinamentos de NRs. Várias NRs aqui são normas regulamentadoras feitas para os funcionários”, detalha o gerente operacional. “Temos líderes, operadores, máquinas, checklist. Todo um treinamento, até pelas três ISOs que a Reminera possui”, conclui Souza, desenhando o cenário de uma operação que une precisão técnica, impacto ambiental e inclusão social na Região Metropolitana de Curitiba. Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região! Seguir no Google