O governo federal autorizou R$ 207 bilhões em operações de crédito para estados e municípios nos três primeiros anos do mandato do presidente Lula. O problema é que o sistema usado para avaliar a capacidade de pagamento dessas gestões falha em identificar a real situação fiscal. Na prática, a União atua como fiadora de grande parte dessas operações e assume a dívida se o estado ou município não honrar os pagamentos. As informações são da Gazeta do Povo. Embora a União exija contragarantias, nem sempre consegue recuperar os recursos porque estados inadimplentes frequentemente recorrem à Justiça. O alerta vem dos economistas Manoel Pires e Felipe Luduvice, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas. Eles testaram os principais indicadores usados pelo Tesouro Nacional para medir a capacidade de pagamento dos estados. Como exemplo, o Amapá admitiu um rombo de quase R$ 1 bilhão no caixa pouco mais de um mês após contratar um empréstimo de R$ 536 milhões com garantia do Tesouro Nacional. Como a operação contou com aval da União, o governo federal terá que honrar os pagamentos caso o Amapá deixe de quitar a dívida. Para Murilo Viana, analista da Finance Consultoria, o efeito prático dessa combinação é o aumento da possibilidade de que os riscos sejam socializados entre todos os contribuintes. O Tesouro só autoriza empréstimos com garantia da União para estados e municípios que recebem boa nota na chamada Capacidade de Pagamento, a Capag. Essa classificação leva em conta indicadores como endividamento, capacidade de poupança e disponibilidade de caixa. O estudo verificou se esses indicadores teriam conseguido avisar, com antecedência, que os estados caminhavam para dificuldades financeiras. Para isso, os autores analisaram episódios ocorridos entre 2004 e 2019, como inadimplência em dívidas garantidas pela União, atrasos no pagamento de salários e retenção de repasses aos municípios. A conclusão foi que os critérios centrais da Capag não se mostraram estatisticamente relevantes para prever as crises. O nível de endividamento, embora seja um dos indicadores mais observados na política fiscal, também não permitiu identificar quais estados estavam entrando em uma trajetória de deterioração. Para Viana, essa é a principal fragilidade do modelo atual: o governo avalia o crédito olhando para o retrovisor. Os indicadores mostram a solvência e a liquidez já registradas nos balanços, mas não examinam suficientemente a sustentabilidade futura das receitas, o crescimento das despesas obrigatórias e a concentração dos vencimentos da dívida. Em vez dos três indicadores centrais da Capag, os pesquisadores encontraram quatro grupos de variáveis com maior capacidade de prever dificuldades financeiras: a evolução da Receita Corrente Líquida, o resultado primário, o peso das despesas com pessoal e o envelhecimento da população. Segundo o estudo, estados com crescimento mais fraco da receita e pior resultado primário tendem a apresentar maior risco de crise. A pesquisa também indica que o risco aumenta quando a despesa com pessoal supera 50% da Receita Corrente Líquida, percentual inferior ao limite de alerta previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal. Os dados mais recentes reforçam esse cenário: em 2024, 18 estados já comprometiam mais de 50% da receita com despesas de pessoal. Pelo Censo de 2022, 23 unidades da Federação tinham mais de 7% da população com 65 anos ou mais. Ao mesmo tempo, o resultado primário do conjunto dos estados passou de superávit de R$ 25,2 bilhões no acumulado de 12 meses até abril de 2025 para déficit de R$ 3,4 bilhões nos 12 meses encerrados em abril deste ano. Viana avalia que a solução não é simplesmente fechar a torneira do crédito. Estados e municípios precisam de financiamento para obras de infraestrutura e serviços públicos. O caminho, segundo ele, é combinar uma avaliação de risco mais rigorosa com critérios mais exigentes para selecionar os projetos que receberão garantias da União. O especialista também defende a criação de um banco de projetos estruturantes, com estudos técnicos, viabilidade econômica e prioridades definidas para além dos mandatos de quatro anos. Assim, a concessão de garantias deixaria de considerar apenas a capacidade de pagamento do estado ou município e passaria a avaliar também se o projeto é necessário, tem escala regional e produz retorno social compatível com o custo da dívida. Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região! Seguir no Google