Desafiando as estatísticas sobre empresas familiares no Brasil, a fabricante de chocolates Barion, com quase sete décadas de história, atravessa atualmente a transição para a terceira geração no comando do negócio. Comandada por Rommel Barion, de 73 anos, a marca paranaense demonstra capacidade de resistência mesmo diante dos obstáculos característicos de um ambiente hostil aos negócios, como o brasileiro. O ingresso da fabricante em recuperação judicial, ocorrido em março de 2025, representa mais do que um simples desequilíbrio financeiro para quem conhece de perto sua trajetória. Trata-se de mais um obstáculo, agora em vias de ser vencido, por um empresário que edificou e fortaleceu, durante seis décadas, um empreendimento industrial exitoso, mesmo enfrentando instabilidade econômica, falta de previsibilidade e limitações estruturais. A empresa entrou em recuperação judicial com passivo de R$ 34,4 milhões, mantendo as atividades, aproximadamente 350 funcionários fixos e produção média de 300 toneladas de doces mensais. A visão do próprio empresário sobre o ambiente de negócios contribui para compreender este momento. “As empresas do Brasil, hoje, têm um grande sócio e inimigo, que é o governo”, diz. Essa avaliação resume uma experiência acumulada durante décadas nas quais crescimento e sobrevivência empresarial dependem menos de condições favoráveis e mais da habilidade de adaptação. Da pequena loja à produção industrial Essa habilidade de adaptação começou a ser construída desde a origem do empreendimento. Em 1959, o patriarca Ricardo Barion deixou Marília (SP) para inaugurar, junto aos filhos Ricardo Jr. e Roberto, uma pequena loja de doces em Curitiba. Rommel, o filho caçula, ingressou nesse ambiente ainda na adolescência. Aos 14 anos, com carteira de trabalho assinada, começou a atuar no balcão, organizando produtos e acompanhando o funcionamento cotidiano da empresa. A formação prática antecedeu a acadêmica, e essa perspectiva pragmática seria aprofundada anos depois, em um momento de inflexão pessoal. No final dos anos 1970, em meio à crise do petróleo e à deterioração econômica brasileira, Rommel considerou deixar definitivamente o país. Mas a conquista de uma bolsa para programa técnico na Alemanha acabou sendo determinante. Durante o período, atuou como estagiário em empresas do setor de chocolates, participou de cursos técnicos e visitou feiras internacionais, tendo contato direto com grandes indústrias. A experiência criou a possibilidade concreta de permanecer no exterior, mas Rommel optou por retornar ao Brasil, agora com compreensão mais estruturada sobre indústria, tecnologia e o mercado de chocolates. Os desafios de produzir chocolate no Brasil Enquanto isso, a empresa avançava rumo à industrialização — movimento que revelou, na prática, os limites estruturais do país. Na primeira planta industrial, na capital paranaense, a empresa adquiriu terrenos de maneira fragmentada, e o projeto foi executado por etapas, conforme a geração de caixa possibilitava. A transferência posterior para Colombo, na região metropolitana de Curitiba, manteve o mesmo padrão. A empresa enfrentou obstáculos de zoneamento e ausência de infraestrutura básica, incluindo acesso por estrada de terra, dificultando a operação em períodos chuvosos. Rommel permaneceu firme no negócio enquanto ampliou sua participação institucional. Durante os anos, presidiu o sindicato do setor de chocolates, foi vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) por mais de uma década e participou de iniciativas relacionadas à logística reversa e ao cumprimento de exigências ambientais pelas empresas. Essa atuação paralela reforçou sua percepção sobre o ambiente regulatório brasileiro como obstáculo ao empreendedorismo. “Insegurança jurídica, carga tributária elevada e produtividade muito baixa”, lista o empresário. Para ele, esses fatores criam uma série de dificuldades à iniciativa privada, elevando gastos e limitando a capacidade de planejamento de longo prazo. A limitação estrutural se intensificou nos anos 1980, durante o período de hiperinflação, quando a previsibilidade econômica praticamente desapareceu. Com inflação anual superior a 5.000%, a gestão financeira tornava-se reativa e o capital de giro era constantemente corroído. Foi nesse ambiente que a Barion liderou o lançamento do Tubetes, produto inspirado em referências internacionais e adaptado ao mercado brasileiro. A inovação levou a empresa a figurar entre as três maiores do setor no país nos anos 1980, segundo o Sindicato das Indústrias de Cacau e Balas, Massas Alimentícias e Biscoitos de Doces e Conservas Alimentícias do Paraná (Sincabima). A estratégia de diferenciação funcionou como resposta direta à instabilidade. “Se você dorme no ponto, o mercado te engole”, afirma Rommel. A expansão para mercados internacionais Com a operação consolidada no mercado interno, o crescimento conduziu naturalmente a empresa ao exterior. Rommel liderou pessoalmente o processo de internacionalização da Barion durante décadas, com a empresa chegando a exportar simultaneamente para 14 países. No auge da operação internacional, seus produtos estavam presentes em mercados da Europa, América do Norte, Oriente Médio e Oceania. O avanço externo, entretanto, também esbarrou em limitações estruturais e cambiais. “Exportar é importante, mas envolve riscos elevados, como inadimplência e barreiras sanitárias”, afirma. Segundo o empresário, a valorização do real em determinados períodos retirou competitividade do produto nacional frente ao chocolate europeu. A operação também foi prejudicada por dificuldades logísticas e pela exigência de escala de grandes redes internacionais. Atualmente, a Barion concentra exportações no Mercosul, com destaque para Argentina, Paraguai e Uruguai, mas a estratégia prevê retomada gradual da presença internacional, com meta de destinar 10% da produção ao exterior. Hoje, a Barion opera com produção média de 300 toneladas mensais. A empresa mantém 331 funcionários fixos, número que pode ultrapassar 400 durante a Páscoa. Da expansão à recuperação judicial Apesar das adversidades, Rommel e seus irmãos garantiram crescimento consistente da Barion até recentemente, quando uma combinação de fatores interrompeu a trajetória. A empresa atingiu R$ 130 milhões em receita em 2024, mas enfrentou sequência de choques, incluindo a crise de grandes redes varejistas, como a Americanas e a rede Dia, e a disparada no preço do cacau, que saltou de US$ 2,5 mil para US$ 12,5 mil em poucos meses. Sem conseguir repassar integralmente os custos, as margens foram comprimidas. “Quando a empresa entra em sufoco, o planejamento dá lugar à sobrevivência”, afirma Barion. O pedido de recuperação judicial marcou novo ponto de inflexão para a companhia. A resposta à crise seguiu a lógica que marcou toda a trajetória do empresário: ajuste rápido e atenção obsessiva à operação. O desafio da sucessão familiar Herdeiro da marca Barion, Rommel superou um dos maiores desafios de empresas familiares no Brasil. Embora esse modelo de negócio represente cerca de 65% do PIB nacional, sete a cada dez companhias não sobrevivem à transição para a segunda geração, segundo a Fundação Dom Cabral. A consolidação da fabricante de chocolates ao longo das décadas levou o empresário à próxima etapa desse desafio: a sucessão para a terceira geração, na qual o índice de sobrevivência é de 10% a 12%. Para garantir o sucesso da transição, Rommel estruturou o processo de forma deliberada, reunindo inicialmente oito membros da terceira geração, entre filhos e sobrinhos, e estabelecendo critérios claros para ingresso na empresa, como formação acadêmica, experiência externa e capacitação. “Vocês não vão herdar a empresa, vão herdar participação em uma sociedade — e sociedade tem regras”, deixou claro. Ao final do processo, apenas três permaneceram na operação. A trajetória da Barion, marcada por sucessivas adaptações, ajuda a explicar a postura que Rommel mantém até hoje. Mesmo aposentado formalmente, ele segue como representante legal da empresa e participa das decisões estratégicas. A escolha reflete convicção construída ao longo da vida empresarial. “O homem não pode parar. Quando para, perde o ritmo, e até a saúde”, afirma. Em um ambiente marcado por instabilidade, gargalos e alto custo de capital, a experiência de Rommel sugere que a sobrevivência empresarial no país depende menos de condições ideais e mais da capacidade de adaptação contínua – lógica que, no seu caso, atravessa gerações. * Esta matéria faz parte da série de reportagens Apesar do Estado, da Gazeta do Povo, que retrata a trajetória de grandes empresários brasileiros que venceram os desafios de empreender em um dos ambientes de negócios mais hostis do mundo. Confira outros textos da série neste link. Entrevista “Nunca imaginei viver mais de 30 anos”, Renato Freitas relembra infância e comenta vida política Tribuna Entrevista “Eu não costumo tirar segundo lugar”, diz Rafael Greca, pré-candidato ao governo do Paraná Cafeicultura Paraná mira em cafés especiais para recuperar relevância após Geada Negra Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região! 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