A proposta de redução da jornada de trabalho e extinção da escala 6×1, em discussão no Congresso Nacional, acendeu um alerta no setor da construção civil. No Paraná, onde a mão de obra e os encargos representam cerca de metade do custo total das obras, a medida pode elevar os custos dos empreendimentos, alongar cronogramas e aumentar o preço dos imóveis para o consumidor final. O impacto local pode ser mais intenso do que a média nacional. Isso porque a redução da jornada elevaria em aproximadamente 22,2% o valor da hora trabalhada, pressionando diretamente o Custo Unitário Básico (CUB), principal indicador do setor, de acordo com o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Paraná (Sinduscon-PR). “Temos levado à bancada federal do estado que a realidade local pode ser ainda mais sensível”, diz o presidente do Sinduscon, Marcelo Braga. O debate ganhou força após o avanço do PL 1.838/2026, que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas. Aprovada pela Câmara dos Deputados, a tramitação da PEC segue com análise indefinida no Senado. No âmbito nacional, o aumento deve ser mais contido. Levantamento conjunto da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) e da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) projeta aumento entre 5% e 11% no custo total dos empreendimentos imobiliários, podendo alcançar 15%, dependendo do modelo de implementação. Para o presidente do Sinduscon-PR, a construção civil possui características operacionais que tornam a adaptação mais complexa. Segundo ele, os canteiros funcionam em uma lógica contínua de execução e a redução dos dias trabalhados pode comprometer etapas importantes realizadas aos sábados, como concretagens e finalizações de serviços. “O setor também enfrenta outro problema operacional, que é a escassez de mão de obra qualificada. Para manter os prazos de entrega atuais, as construtoras precisariam contratar mais trabalhadores para cobrir os turnos vagos ou pagar horas extras, o que elevaria o custo além do previsto”, avalia Braga. Hoje, o país já enfrenta dificuldades para preencher vagas na construção civil. Segundo estimativas da CBIC, seriam necessários cerca de 288 mil novos trabalhadores para manter os níveis atuais de produtividade caso a jornada seja reduzida. Conta do fim da escala 6×1 deve chegar ao bolso do comprador Na avaliação do setor, a tendência é que parte dos custos adicionais seja repassada ao consumidor final. Isso porque as construtoras trabalham com margens líquidas consideradas apertadas, normalmente entre 8% e 12%. O resultado seria um encarecimento dos imóveis e um impacto indireto sobre o crédito imobiliário, já que financiamentos maiores exigem parcelas mais elevadas e reduzem o número de famílias aptas à aprovação. “O principal impacto será econômico e inflacionário. O mercado ainda não enxerga efeitos estruturais positivos capazes de compensar o aumento imediato de custos”, afirma Nikolas Nissel, diretor de Real Estate da Quartzo Capital. Segundo Nissel, o problema é ainda mais sensível porque grande parte dos empreendimentos atualmente em construção já foi comercializada. Nesse cenário, as incorporadoras não conseguem repassar imediatamente os aumentos de custos para os compradores, o que comprime as margens e reduz a rentabilidade dos projetos. O segmento mais vulnerável é o de habitação popular. Empreendimentos enquadrados no programa Minha Casa, Minha Vida operam com margens reduzidas e possuem limites de preço definidos pelas regras de financiamento. Segundo estimativas da Abrainc e da CBIC, o impacto pode chegar a 10% no custo das unidades populares. Mercado já revisa estratégias para driblar efeitos A discussão sobre a redução da jornada ocorre em um momento desafiador para o setor imobiliário, marcado por juros elevados, inflação da construção e dificuldades na contratação de trabalhadores qualificados. O componente de mão de obra do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) acumula alta de 8,9% nos últimos 12 meses, superando a variação dos materiais de construção. Diante desse cenário, empresas vêm acelerando iniciativas voltadas ao aumento da produtividade, industrialização de processos construtivos e busca por novas fontes de financiamento. Para Nissel, os efeitos da proposta vão além da legislação trabalhista e alcançam diretamente a estrutura financeira do mercado imobiliário. “O mercado já começa a recalibrar os modelos de viabilidade, demanda por capital de giro e arquitetura operacional dos projetos”, afirma. Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região! Seguir no Google