A inteligência artificial (IA) está sendo utilizada para auxiliar o diagnóstico de cânceres raros no Hospital São Vicente, em Guarapuava, no Centro-Sul do Paraná. A plataforma faz parte do projeto Capricórnio, criado pelo Google Cloud em parceria com um centro de pesquisa da Holanda, e começou a atuar em abril no município, após um acordo com o Governo do Paraná. O estado é o primeiro do país a receber a ferramenta, que está sendo utilizada inicialmente no Sistema Único de Saúde (SUS). O Capricórnio permite acessar todas as informações disponíveis no PubMed, um banco de dados médico global. Assim, o sistema cruza históricos clínicos complexos com essa base científica e o diagnóstico é feito de forma mais ágil. Além disso, os médicos podem fazer pesquisas em português e em linguagem natural, o que vai além da busca por palavras-chave exatas. O oncologista Roger Akira Shiomi, do Instituto de Oncologia do Paraná (IOP), aponta que essa busca antes levaria dias de pesquisa manual, e agora pode ser feita em minutos. Vale lembrar que existe uma resolução do Conselho Federal de Medicina, de fevereiro de 2026, para regular o uso de IA na prática médica. O texto estabelece que a IA pode ser uma ferramenta de apoio, mas não pode substituir o raciocínio clínico. Além disso, a responsabilidade por diagnósticos ou condutas continua sendo do médico. A IA pode encontrar evidências, mas a definição da origem do tumor depende de outros fatores, como exames, avaliação clínica e decisão da equipe médica. Médicos oncologistas avaliam o projeto Capricórnio O oncologista Antônio Brunetto, atuante no Centro de Oncologia do Paraná (COP), vê com entusiasmo o projeto Capricórnio: “O principal benefício é aumentar a capacidade da equipe médica, principalmente diante de tumores raros ou de comportamento atípico.” Segundo ele, um dos maiores desafios atualmente é a quantidade de conhecimento produzido diariamente, sendo “humanamente impossível” que um único profissional decore tudo. “Na oncologia, tempo é um fator importante. Quanto mais rapidamente conseguimos compreender o tipo de tumor, o estágio da doença e as características biológicas do câncer, mais cedo podemos definir uma estratégia adequada”, ressalta Brunetto. Shiomi tem uma visão semelhante: “Ao devolver tempo ao médico — tempo que hoje é perdido revisando literatura —, a IA pode abrir espaço para mais presença humana na consulta, não menos”, define. Mesmo com a nova ferramenta, Brunetto alerta para os desafios que persistem, como “garantir a proteção de dados, avaliar a qualidade das fontes utilizadas, evitar respostas incorretas e impedir que a ferramenta seja usada sem supervisão médica”. Um sistema importante começando no SUS Shiomi afirma ser simbólico que a operação do Capricórnio no Paraná tenha começado fora de Curitiba, sendo aplicada primeiramente no interior e pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Por muito tempo, a medicina de ponta pareceu reservada a poucos endereços. Ver isso chegar a Guarapuava é um sinal de que essa distância pode diminuir”, declara o oncologista. Ainda assim, ele prefere ver a plataforma com cautela, afinal são poucos meses de uso. Para ele, o valor real da ferramenta vai se revelar ao longo do tempo, com a análise de muitos casos, e não apenas de um – por mais marcante que ele seja. Brunetto reforça que uma ferramenta como o Capricórnio pode ser especialmente valiosa em hospitais que não possuem acesso imediato a especialistas ou a grandes centros de pesquisa. “Ela pode democratizar o acesso ao conhecimento científico e aproximar equipes do interior das mesmas evidências utilizadas em centros internacionais”, explica. Como ocorrem os diagnósticos de câncer normalmente Shiomi explica que, quando um tumor já está espalhado pelo corpo e os exames não conseguem apontar onde ele começou, ocorre o chamado “sítio primário desconhecido”. Segundo o oncologista, isso acontece apenas em 2% a 5% dos casos. “O caminho tradicional é uma sequência de exames, seguida de uma busca manual na literatura mundial à procura de casos parecidos”, exemplifica. O médico revela que esse processo pode levar de semanas a meses e, quando o perfil é raro, uma definição concreta pode nem chegar a acontecer. Nesse meio tempo, existe uma pessoa esperando para saber sobre sua saúde. “A IA reduziu esse intervalo para poucos dias. Não descobriu algo que a ciência não soubesse, apenas encontrou mais rápido o que estava disperso pelo mundo”, resume, ressaltando que a ciência em si também tem limitações e pode não ter a resposta para todas as perguntas. Outras frentes em que a IA pode atuar Shiomi revela ainda que existem outros caminhos que a inteligência artificial está percorrendo na medicina. Na radioterapia, sistemas auxiliam a demarcar com mais precisão onde a radiação deve agir, poupando o tecido saudável ao redor do tumor. Alguns algoritmos aceleram a triagem de moléculas candidatas e ajudam a encontrar novos usos para remédios que já existem. Isso pode reduzir o tempo entre uma descoberta em laboratório e a aplicação em tratamentos. Ele também cita o “gêmeo digital”, um simulador que permite ver, no computador, como uma doença específica pode evoluir em um paciente. O sistema permite testar diferentes tratamentos e observar reações antes mesmo de aplicá-los. Já Brunetto conta que, no campo da neurologia, a IA pode auxiliar na interpretação de exames de imagem, ajudando na identificação precoce de acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e na análise de doenças raras. Na saúde da mulher, a tecnologia pode colaborar na avaliação de mamografias, exames ginecológicos e no acompanhamento de gestações de risco. O ponto central, analisa o médico, é a validação para cada finalidade. “A expansão é positiva, mas deve ocorrer com responsabilidade, transparência e controle. Quanto mais complexa a tecnologia, maior a responsabilidade humana sobre a sua utilização”, resume. Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região! Seguir no Google