Quem vê o médico Marcelo Loureiro entrando para o Guinness World Records após ajudar a realizar uma telecirurgia robótica entre dois países dificilmente imagina que, além da habilidade com pacientes e bisturis, ele tem um talento inato que o levou ao livro dos recordes: o empreendedorismo, a curiosidade e a inquietude que lhe acompanham desde a infância. Aos 55 anos, o cirurgião do aparelho digestivo, fundador da Scolla Centro de Treinamento Cirúrgico, em Campo Largo, diz que a estabilidade não é algo que o atrai. “O legal é o caminho, não a chegada”, diz ele, que está sempre atrás de inovação, soluções, de testar novas coisas, empreender e fazer a diferença na vida das pessoas. A inquietude já até virou brincadeira em família. Aos risos, ele conta que a esposa, além de sempre dizer que ele está mudando a história da medicina no Brasil, sempre lhe diz: “Só de olhar para você, eu fico cansada.” Personalidade marcante e necessária para quem pretende construir algo novo e relevante para o mundo. Uma inquietude que explica sua trajetória. Muito antes dos robôs cirúrgicos, dos centros de treinamento e dos recordes mundiais, existia apenas um jovem compulsivamente curioso, que só queria entender como as coisas funcionam. Física, matemática ou medicina? A escolha pela medicina não foi tão óbvia. Quando jovem, Marcelo queria cursar física ou matemática, pois gostava de raciocínios lógicos, mecanismos, relações e soluções. Mas, vendo o irmão mais velho estudar medicina, inspirou-se e seguiu o mesmo caminho. Formou-se e fez residência na Universidade Federal do Paraná (UFPR). “O aparelho digestivo é fascinante. É uma especialidade complexa. Tem muitos ingredientes para quem é curioso”, conta o médico, especialista em cirurgia bariátrica e de hérnia. A sorte de encontrar uma revolução minimamente invasiva Marcelo conta que, quando estava saindo da residência médica, a cirurgia passava por uma revolução: a migração das grandes cirurgias abertas para procedimentos minimamente invasivos (videolaparoscopia). Enquanto muitos profissionais observavam a novidade com cautela, ele mergulhou nela. Foi para a França, referência mundial na área e país de origem de sua família, onde passou um ano estudando o tema. Ao retornar ao Brasil, trouxe a técnica e uma convicção: a medicina muda o tempo todo e quem deseja permanecer relevante precisa continuar aprendendo. Por isso, ele está sempre trabalhando simultaneamente em muitas coisas diferentes. “Eu gosto de vários projetos ao mesmo tempo. Isso me traz paz de espírito em abandonar o que não dá certo e escolher outro caminho. Eu não sinto como derrota. É liberdade, em busca do que faz sentido”, admite. Scolla “inquieta” Entre as dezenas de mudanças que ele viu na medicina, uma das últimas lhe deixou inquieto (de novo): o número de faculdades aumentou, a quantidade de médicos cresceu de forma acelerada e o último Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) comprovou: a qualidade da formação prática não acompanhou esse ritmo. “Se existe uma profissão em que precisamos entregar o melhor profissional possível para a sociedade, é a de cirurgião. Aqui não pode haver erro”, afirma. Assim surgiu a Scolla no ano de 2022, um local onde médicos já formados pudessem aprender novas técnicas, praticar procedimentos complexos e acompanhar a velocidade tecnológica em saúde. Mas antes de se tornar um dos maiores e mais conhecidos centros de treinamento cirúrgico da América Latina, recebendo de 700 a 800 médicos de diversas especialidades e nacionalidades por ano, o projeto começou modesto. O ano era 2004, quando Marcelo criou um modelo de treinamento para cirurgiões. E o projeto funcionou durante 18 anos numa universidade em Curitiba, até o médico decidir criar a sua própria estrutura. Marcelo Loureiro. Foto: Divulgação / Marcelo AndradeQuando a ficção científica chegou ao centro cirúrgico Quando Marcelo estudava na França, a ideia de operar alguém a milhares de quilômetros de distância parecia absurda. Mas a curiosidade de sempre rompeu barreiras. Nos últimos anos, Marcelo passou a viajar com frequência à China em busca de tecnologias emergentes para a área médica. Assim, trouxe a telecirurgia ao Brasil. O conceito parece simples de explicar e complexo de executar: um médico opera um paciente localizado em outra cidade, estado ou país, utilizando um robô cirúrgico conectado por sistemas de internet de alta velocidade. Em 2025, essa tecnologia colocou o Paraná no centro das atenções da medicina mundial. Uma cirurgia de hérnia inguinal realizada entre Curitiba e o Kuwait, a 13 mil quilômetros de distância, estabeleceu o recorde mundial de maior distância entre médico e paciente em uma telecirurgia robótica. O feito foi auditado pelo Guinness World Records. Meses antes, Marcelo e sua equipe já haviam operado, de forma pioneira, entre Paraná e Paraíba, a 3 mil quilômetros de distância. Apesar da repercussão internacional, ele evita tratar o assunto como um troféu pessoal. “Nós não fizemos isso para bater recorde. Foi para que mais pessoas se interessassem pelo tema. A tecnologia reduz distâncias e leva especialistas a pacientes que antes não tinham acesso. A questão não é recorde. É democratização do acesso à Medicina”, conclui o médico. Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região! Seguir no Google