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Por que araucárias gigantes tombaram no Sul do Brasil?

30 de julho de 2026
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No alto da serra catarinense, a rotina da família Souza começa com barulho de quadriciclos cruzando o campo gelado em direção a uma clareira de chão batido. O trajeto é curto, mas termina diante do tronco de uma árvore tão largo que um adulto não consegue abraçá-lo: mais de três metros de diâmetro na base e uma cavidade em que, no passado, tropeiros e lavradores se abrigavam da chuva. É ali que está o “Pinheirão” de São Joaquim, hoje medido como a maior araucária conhecida no Brasil, com 39,2 metros de altura e 106,6 metros cúbicos de volume de madeira. “Minha família cuida dessa araucária há aproximadamente 140 anos”, conta Antônio Luciano de Souza, proprietário da fazenda batizada em homenagem à árvore. “Meu avô falava que ela era uma gigante da natureza. Que era uma araucária da sorte porque venceu a ganância do homem, eles não tinham serras grandes o suficiente para cortá-la.” A descrição combina com o retrato científico feito anos depois por pesquisadores, que registraram o tronco com 3,25 metros de diâmetro à altura do peito e cavidades internas de vários metros quadrados. “A visitação das pessoas começou em 2012. Não podia limitar ela somente para minha família, seria egoísmo da minha parte”, diz o proprietário, revelando que o turismo chegou antes da certificação. Para ele, receber turistas virou uma forma de educação ambiental. “Isso gera um incentivo às futuras gerações sobre a preservação das araucárias.” Não existe um protocolo oficial de proteção ou manutenção para a árvore. O proprietário conta que o cuidado principal é controlar o acesso, com todas as visitas feitas sob a supervisão de um guia da fazenda para que nenhum um dano seja feito ao exemplar. Mesmo assim, Souza admite um temor: “Minha maior preocupação é a queda da araucária, assim a gente se preocupa muito porque contra a natureza não existe defesa.” Onde estão as árvores gigantes e quantas ainda existem A árvore que virou estrela da fazenda em São Joaquim também ganhou destaque dentro da categoria criada por pesquisadores para separar os exemplares fora de qualquer padrão. Em 2019, Marcelo Scipioni, pesquisador da Universidade de Santa Catarina (UFSC), e sua equipe de engenheiros florestais, publicou um levantamento batizado de “árvores gigantes” da espécie Araucaria angustifolia: troncos com diâmetro à altura do peito acima de 1,5 metro e alturas que passam dos 30 metros. Para montar esse retrato, o grupo percorreu mais de 6,8 mil quilômetros em estradas do Sul do Brasil, medindo 3.529 araucárias em inventários florestais do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No fim da viagem, o número que sobrou para a classe dos gigantes foi pequeno: apenas 21 árvores entraram na lista na época, espalhadas por fazendas, parques municipais, reservas particulares e áreas experimentais da Embrapa. A maior de todas era justamente o Pinheirão da família Souza. Na sequência vêm o Pinheiro Grosso, em Canela (RS), com 2,68 metros de diâmetro e estrutura de visitação consolidada, e a antiga araucária gigante de Cruz Machado (PR), que alguns anos depois acabaria tombando. Desde então, o grupo mantém uma plataforma que atualiza esse ranking com novas descobertas e medições. Na lista mais recente, são pouco mais de 40 araucárias gigantes vivas no Sul, todas com diâmetro acima de 1,5 metro, distribuídas em cidades como São Joaquim, Campos Novos, Fraiburgo, Caçador, Gramado Xavier, Nova Petrópolis, Guarapuava e Mandirituba. Em alguns casos, como o Pinheiro Grosso, a árvore virou atração turística visitada por mais de 13 mil pessoas por ano; em outros, estão em fazendas particulares e seguem escondidas. Dentro desse grupo já reduzido, a lista das árvores com mais de 2 metros de diâmetro é ainda menor: pouco mais de uma dezena de exemplares: 1ª — São Joaquim (SC) — Pinheirão: 3,25 m de DAP (diâmetro à altura do peito), 39,2 m de altura 2ª — Canela (RS) — Pinheiro Grosso: 2,68 m de DAP, 39 m de altura 3ª — Urupema (SC) — Bossoroca: 2,45 m de DAP, 33 m de altura 4ª — São Joaquim (SC) — Menina da Custódia: 2,25 m de DAP, 39,3 m de altura 5ª — Campos Novos (SC): 2,21 m de DAP, 44 m de altura 6ª — Alfredo Wagner (SC) — Santo Anjo 1: 2,20 m de DAP, 37 m de altura 7ª — Guarapuava (PR): 2,16 m de DAP, 35,5 m de altura 8ª — Gramado Xavier (RS) — Pinheirão: 2,14 m de DAP, 42 m de altura 9ª — Fraiburgo (SC) — Floresta René Frey: 2,13 m de DAP, 40 m de altura 10ª — Santa Cecília (SC): 2,10 m de DAP, 35,5 m de altura As quedas que acenderam um alerta  Nos últimos anos, preocupações como a de Souza deixaram de ser apenas medo intuitivo de produtor rural e passaram a fazer parte de um mapa de perdas concretas. Em 2023, uma das araucárias mais emblemáticas do Paraná, conhecida como “Araucária Gigante” e localizada na região de Cruz Machado, tombou depois de décadas servindo como referência local e alvo de estudos científicos. Esta queda foi registrada pela mesma equipe que monitora o Pinheirão de São Joaquim. O impacto foi tão grande que a Embrapa Florestas decidiu produzir mudas clonadas a partir do material genético do exemplar perdido. Em 2025, uma dessas mudas foi plantada nos jardins do Palácio Iguaçu, sede do governo do Paraná, em uma cerimônia que tratou a nova araucária como herdeira simbólica da que se foi. Santa Catarina também entrou nesse mapa. Em Caçador, na estação experimental da Embrapa, uma das maiores araucárias do campo de pesquisa caiu neste ano, depois de anos sendo usada como referência em medições e ensaios. O local abriga outras árvores gigantes, ainda em pé, mas a queda desse exemplar reforçou a sensação de que nem mesmo áreas técnicas, com monitoramento mais frequente, estão imunes. O caso mais estudado, porém, aconteceu em Fraiburgo, também no meio-oeste catarinense. No Parque René Frey, uma área urbana cercada por bairros residenciais, quatro araucárias monumentais caíram durante eventos de chuva intensa entre outubro e novembro de 2023. Ali, a queda deixou de ser apenas mais um caso e virou preocupação de segurança: árvores gigantes tombando ao lado de trilhas e ruas, em um parque que recebe visitantes diariamente. Esse conjunto de episódios acendeu um alerta aos pesquisadores: por que árvores tão grandes, que pareciam capazes de resistir a tudo, estão caindo agora? O que está derrubando as árvores  A sequência de quedas levou o engenheiro florestal Scipioni a tratar o episódio como caso de estudo forense. “Aquelas árvores eram monumentais, com dezenas de toneladas, e caíram em um período muito curto. Precisávamos entender se isso era coincidência ou um sinal de mudança nas condições de estabilidade”, resume o pesquisador. O trabalho, publicado em abril deste ano na revista científica Agricultural and Forest Meteorology, analisou em detalhe quatro araucárias que tombaram e uma quinta que sobreviveu no Parque René Frey, durante os eventos de chuva extrema do fim de 2023. Ele explica que a equipe mediu diâmetro, altura, volume de madeira, resistência da madeira, características do solo e dados climáticos, cruzando tudo com registros de precipitação e vento no período. Logo de início, os pesquisadores afastaram a hipótese mais intuitiva. “Muitos pensam que é o vento que derruba essas árvores, mas no nosso estudo o esforço do vento nunca chegou perto do limite de ruptura da madeira”, conta Scipioni. Os cálculos mostraram que, mesmo em dias com rajadas fortes, a tensão de flexão no tronco ficou abaixo do módulo de ruptura da madeira, estimado em cerca de 71,59 megapascais. Amostras de solo coletadas ao redor das araucárias mostraram que se tratava de solos muito argilosos, com alta capacidade de reter água. O pesquisador explica que, em condições normais, esse tipo de solo tem resistência ao cisalhamento em torno de 50 quilopascais, valor suficiente para manter raízes ancoradas. Mas a chuva prolongada, porém, derrubou essa resistência para cerca de 36 quilopascais, patamar em que o solo se aproxima do chamado “limite de liquidez” e começa a perder coesão, ressalta Scipioni. “Com o solo saturado, as raízes perdem sustentação. É como tentar segurar uma árvore em cima de lama”. O problema é descrito por ele em etapas: chuvas intensas encharcam o solo, reduzem sua resistência, e isso leva ao tombamento de árvores gigantes mesmo sem ventos extremos. Uma comparação entre as cinco árvores analisadas ajuda a entender o mecanismo: As duas árvores que caíram estavam em posições de sopé, com declividade muito baixa (entre 0% e 3%), áreas onde a água tende a se acumular e o solo satura mais rápido. A árvore que sobreviveu, mesmo com maior volume de madeira e a maior biomassa do grupo, estava em um terreno com leve inclinação (entre 3% e 8%), o que favorecia a drenagem da água. “Não foi a maior árvore que caiu, foi a que estava no pior lugar em termos de drenagem e saturação do solo”, resume Scipioni. El Niño, chuva extrema e o novo cenário para as araucárias O pesquisador faz questão de frisar que o problema não são apenas “tempestades isoladas”, mas o novo padrão de chuva em anos do fenômeno El Niño. “O que temos observado é que, em anos de El Niño, a chuva deixa de ser um evento pontual e passa a ser uma sequência, que mantém o solo encharcado por muito mais tempo”, explica. Ele lembra que, em 2023, quando as quatro araucárias monumentais caíram no parque René Frey, em Fraiburgo, a região viveu um período prolongado de chuvas fortes. “Não foi só um dia de temporal. Foram vários dias com precipitações altas, acumulando mais de 400 milímetros em poucas semanas. Isso é muita água entrando em um solo que já é naturalmente argiloso”, aponta. Para o pesquisador, isso muda a forma como o país deveria olhar para anos de El Niño em áreas onde ainda existem araucárias monumentais. “Não é só mais chuva. É mais dias com o solo encharcado, especialmente em solos argilosos. Se sabemos onde estão as árvores gigantes e como é o solo ali, conseguimos antecipar cenários de risco”, afirma. O que pode ser feito para evitar novas quedas O pesquisador insiste que a conclusão do estudo não se resume a um diagnóstico pessimista, e sim é um roteiro de ações possíveis. “A boa notícia é que parte desse risco pode ser manejada. Se conhecemos o tipo de solo, o relevo e a posição das araucárias gigantes, conseguimos atuar antes que a saturação chegue a níveis críticos”, afirma. Uma das principais recomendações apontadas por ele é monitorar de forma contínua a umidade do solo em torno das árvores monumentais, principalmente em áreas com solos argilosos e relevo de sopé. Em anos de El Niño, quando a sequência de chuvas é mais longa, esse tipo de medição permitiria acionar planos de emergência — como restrição de acesso em dias de maior risco e avaliação de drenagem — em vez de descobrir o problema só depois que uma árvore cai. Outra frente apontada pelo pesquisador é a melhoria da drenagem em locais planos e muito visitados. Parques urbanos, áreas experimentais e fazendas com grande fluxo turístico poderiam, segundo ele, investir em canais de escoamento, manejo de encostas e revisão de trilhas, para evitar que a água se acumule exatamente onde estão as raízes das gigantes. “Não adianta pensar só em cortar galhos que parecem perigosos. O ponto frágil está no contato entre raiz e solo, e é ali que a gestão precisa entrar”, ressalta. Scipioni também defende o uso de técnicas não destrutivas para acompanhar a saúde estrutural das árvores, especialmente aquelas com grandes cavidades na base, como o próprio Pinheirão. Ferramentas como tomografia sônica de tronco e medição dinâmica de deformação permitem avaliar o interior da madeira e a presença de vazios sem precisar derrubar o exemplar. “São árvores com valor ecológico e cultural muito alto. Se tratamos pontes e prédios com monitoramento estrutural, faz sentido aplicar a mesma lógica a árvores monumentais em áreas de uso público”, argumenta ele. O pesquisador reconhece, porém, que há lacunas importantes. Nem todos os estados têm inventários tão detalhados quanto o Sul do país, o que dificulta saber exatamente onde estão todas as árvores em risco. E boa parte dos exemplares monumentais está em propriedades privadas, dependendo da vontade dos donos para adotar protocolos de monitoramento e controle de visitação mais rígidos. “Sem saber onde estão as árvores e sem uma rede mínima de monitoramento, ficamos reféns da sorte e da estatística”, resume Scipioni. Para Souza, da Fazendo Pinheirão, o que está em jogo vai além de números de diâmetro e gráficos de solo. “Vejo esta araucária como um legado dos meus antepassados. Continuarei honrando e preservando tudo o que nos foi deixado. Meu desejo é que as futuras gerações continuem preservando, cuidando e amando a natureza, que este patrimônio seja visto e vivenciado todos os dias.” Do lado da ciência, Scipioni enxerga o mesmo legado em escala maior. “Essas árvores são ao mesmo tempo laboratório vivo, patrimônio ecológico e memória cultural. Se deixarmos que caiam uma a uma, perdemos dados, perdemos história e perdemos um símbolo de floresta que já foi muito maior”, conclui. Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região! Seguir no Google

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